Batendo na mãe

1993, eu já acostumado com a montanha russa de emoções que a carreira de técnico do meu pai proporcionava, além da vida cigana, passei nesse ano por uma forte emoção.

Mas vamos começar do começo. Desde pequeno, convivi de perto com as loucuras e maravilhas que a carreira de técnico de futebol proporciona. Quando o meu pai era técnico de um time no Brasil, minha mãe, eu e meus 3 irmãos ficávamos em Santos, nossa cidade natal, mas sempre dávamos um jeito de conhecer o lugar, até para atenuar a grande saudade que sentíamos. Agora quando ele trabalhava fora do país, aí íamos todo mundo de mala e cuia. Por isso, que sempre agradeço ao meu pai e ao futebol por tudo que nos proporcionou.

No começo da década de 80, foram 2 anos entre as dunas e camelos do Qatar, depois mais 2 anos na cidade do Porto em Portugal, no fim da década em Lima, no Perú (a única seleção que ele dirigiu) e no começo da década de 90, mais 2 anos em Kawazaki, no Japão (onde ganhou muitos títulos dirigindo o ex-santista Kazu, grande ídolo no país).

Morando fora, sem internet ou TV internacional, ficava muito difícil para eu acompanhar o Santos FC. Mas sofria à distância com o momento complicado vivido pelo time, além da saudade de assistir aos jogos na Vila. Por isso, quando estava por aqui, acompanhava assiduamente.

Ia muitas vezes sozinho na Vila de ônibus e lembro que em uma delas voltei para casa descalço e minha mãe perguntou: “Cadê o chinelo, filho?”, respondi “soltaram as tiras e ficaram pelo caminho”. Mal sabia ela que eu havia “tacado” os chinelos em algum bandeirinha ladrão. Um belo exemplo!

Mas voltamos ao inicio, no ano de 93. Eu estava naquela fase de acompanhar de perto, ver todos os jogos, conhecer detalhes do time, jogadores, esquema, enfim cumprindo meu papel de torcedor.

Meu pai acerta para ser técnico da Portuguesa, a querida Lusa. Adorei, agora teria dois times pra torcer no mesmo campeonato. Comecei a me revezar entre a Vila e o Canindé, mas conseguia acompanhar bem menos a Lusa que o peixe.

E pensei, e quando eles se enfrentarem? Fácil decisão: sou Pepe Futebol Clube, meu pai em primeiro lugar e é a Lusa que está garantindo o leitinho das crianças. É só fazer de conta que o Santos é outro time…

E chega o grande dia no Canindé, em maio de 1993 pelo Paulistão. O peixe que iria a campo eu conhecia de cor e salteado, a Lusa também conhecia, mas nem tanto. Mas sabia que a serviço do meu pai estava um craque: o garoto Dener. Para quem não conhece, Dener foi um desses fora de série que o futebol brasileiro revela de vez em quando, infelizmente vítima fatal de um acidente de carro no ano seguinte.

Canindé lotado. 80% torcida do Peixe, 20% da Lusa. Eu do lado da Lusa, ao lado do meu amigo Bruno, esse sim torcedor da Lusa. O Santos entra em campo, todo de branco, a torcida faz uma linda festa, cantando as músicas que eu cantava e gritando o nome dos jogadores que eu gritava. Sensação muito estranha, coração apertado, como torcer contra? Logo minha dúvida acabou: a Lusa entra em campo e por último vejo saindo túnel aquela “carequinha”. Ah, aquela carequinha, sou Lusa desde criança.

E começa o carrossel de emoções: Neizinho antecipa a zaga e faz 1 a 0 pro Peixe. Vejo o estádio indo abaixo e dou um sorriso. Vejo meu pai olhando para baixo e fico triste. O dia ia ser difícil. Virou 1 a 0 no intervalo.

Começo do segundo tempo, Ranieli de falta faz 2 a 0 pro Peixe. De repente aquele neguinho que vestia a 10 da Lusa acordou. Dener faz uma linda jogada e serve Bentinho: 2 a 1. Parecia replay, Dener faz a mesma jogada e serve Bentinho 2 a 2. Comemorei aliviado o gol de empate. Agora estava mais feliz: meu pai estava comemorando e o peixe não estava perdendo. Ledo engano. Tico faz 3 a 2 e vira para a Lusa.

Aí foi como se o tempo parasse: esqueci todas as emoções que estava vivendo ali para exaltar apenas a maravilha do futebol: Dener pegou a bola no meio de campo, driblou o time inteiro e entrou com bola e tudo. Um gol antológico, histórico, que tive a honra de acompanhar ao vivo. Fim de jogo Portuguesa 4 x 2 Santos. Fico muito feliz pela alegria do meu pai, mas com uma sensação estranha de como se eu tivesse batido na mãe.

Chego no vestiário e aguardo o meu pai na coletiva de imprensa. Esperei todo mundo sair pra falar com ele. E o que ele disse me abraçando me derrubou: “Desculpe filho”. E completou “Hoje o Pelé estava do outro lado”. Chorei feliz e triste.

Na saída do vestiário, já vazio, com restos do jogo pelo clube, fomos em direção ao carro. Um torcedor do peixe bem simples e humilde, meio embriagado, pergunta ao meu pai: “Você não é o Pepe?”. Meu pai responde “sim”. E ele: “Posso te dar um abraço?”. Meu pai: “claro”.

Os dois se abraçaram e o torcedor começa a chorar muito a ponto de deixar o ombro da camisa do meu pai molhado. E ele completa “obrigado por tudo que o senhor fez pelo Santos”.

Meu pai estava perdoado e eu, de alma lavada.

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Foto de capa: Folhapress

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