1, 2, 3 coloca o japonês

1990, meu pai era técnico do peixe pela 4a vez. Nessa época de vacas magérrimas no clube, volta e meia lembravam dele como solução barata e caseira. Era bom para todo mundo. Além de conhecer do assunto e falar a língua do “boleiro”, nossa torcida sempre teve muito carinho por ele. Como técnico do peixe foram 5 vezes. Muitos sucessos (como o título paulista de 1973, comandando Pelé, o vice-paulista de 1980 e outras boas campanhas), mas também tiveram alguns insucessos, que deixaram um gosto amargo e marcas profundas na minha personalidade. A combinação paixão pelo time do coração + bullying após derrotas, não fez bem para mim, mas isso é assunto para outro texto.

O elenco de 1990 também era no esquema “baixo orçamento”, mas tinhamos alguns bons jogadores: os jovens Cesar Sampaio, Sergio Manoel, Axel, os mais rodados Indio, Marcelo Veiga, o xerifão da zaga Márcio Rossini e o craque em fim de carreira Serginho Chulapa, figura sensacional, cujo vocês vão gostar das histórias, em breve.

Por ter a “cabeça pequena”, Axel foi apelidado pelo meu pai de “cabecinha”. Por falar em bullying, meu pai e Chulapa adoravam fazer com os mais novos Camilo e cabecinha. Pepe com cara de bravo: “cabecinha, vem cá?”, Axel vinha correndo. Pepe: “Porque esse bigodinho no rosto?” Axel: “Pra intimidar o adversário, professor.” Todos caiam na risada. Apesar de não ser nenhum esquadrão, o ambiente era ótimo e eu adorava frequentar os treinos e jogos e na medida do possível, o time fazia boa campanha no Paulista.

Um jogador começou a chamar atenção do meu pai: o japonês Kazu. Para quem não lembra, Kazuyoshi Miura, ou simplesmente Kazu, era um atacante japonês, que já tinha rodado por alguns times brasileiros. Embora já se virasse com o português, Kazu era quieto, na dele, se preocupava mais em trabalhar, treinar e aprimorar seus fundamentos. Ele era reserva, mas geralmente entrava nos jogos. Um prato cheio para os corneteiros da torcida, já cansados do jejum de títulos do clube. Então, a qualquer jogada errada de Kazu, era comum ouvir na Vila “Abre o olho japonês”, “Vai vender pastel” e por aí vai.

Mas o japonês não era bobo, fingia que não entendia as críticas e trabalhava mais. De tanto treinar e aprimorar o chute com as duas pernas, ganhou uma chance no time titular e logo em um clássico, contra o Palmeiras no Morumbi. Meu pai e o elenco passaram confiança para ele, mas na verdade só o grupo acreditava nele. Meu pai ainda teve que ouvir de um diretor: “Pepe, você foi um dos maiores atacantes da história do clube. Tem certeza que vai por esse japonês no ataque e logo num clássico?”.

Meu pai escalou e o japa arrebentou. Placar final 2 a 1 para o Santos, com um belo gol de Kazu. A partir daí o japonês ganhou as manchetes de jornais e TVS. O próximo jogo era contra o Guarani na Vila. Ingressos esgotados, principalmente após a vitória no clássico. O Templo Sagrado do Rei Pelé e de tantos craques, estava lotado para ver principalmente o japonês.

Jogo duro, zero a zero até o fim, Kazu já era figura conhecida e estava sendo extremamente bem marcado na ponta esquerda. Meu pai, vendo que por ali não teria jeito, resolveu mudar o japonês de lado e colocou nos 15 minutos finais ele aberto na direita. E deu certo! Kazu arrebentou, entortou todo mundo por ali e fez mais um golaço, o gol da vitória, para sair “nos braços da torcida”.

Quando o assunto é SFC o negócio repercute muito e a fama de Kazu rodou o mundo, chegando em sua terra natal. O peixe não aguentou o assédio dos nipônicos, em fase de profissionalização no futebol, e o Yomiuri do japão contratou o mais novo ídolo do país, o filho da terra que brilhou na casa de Pelé.

Em 1991, meu pai se transferiu para o Guarani onde foi vice-campeão brasileiro da série B, subindo o time bugrino. Estavámos felizes com esse sucesso, quando aconteceu algo que nem imaginávamos: uma proposta para o meu pai trabalhar no Japão. Sim, era ele, Kazu retribuindo o que o meu pai fez por ele. O time, era o mesmo Yomiuri.

Posso dizer que foram os 2 anos mais felizes da carreira de técnico do meu pai. Sem dúvida, a melhor experiência. O Japão é fantástico pela sua louca mistura de passado (templos budistas, fumaça de incenso, gueixas) e futuro (altíssima tecnologia), além do povo ser maravilhoso e ter dado tanto carinho para o “Pepe San” (Sr. Pepe).

Para os padrões japoneses, o Yomiuri era um timaço. Tinha 7 jogadores da seleção do país, incluindo o brasileiro naturalizado japonês Ruy Ramos, um meio-campista quarentão, craque e uma espécie de dono do time (e da seleção). Uma pena o Brasil não ter conhecido bem esse fantástico jogador, que mora no Japão até hoje.

Mas se o Ramos era o “dono” do time, a estrela era Kazu. Quando meu pai chegou por lá, já notou a diferença. Aquele japonesinho simples e humilde da Vila, agora era outra pessoa. Continuava gente boa, mas virou um popstar. Não conseguia nem sair na rua e vivia cercado por um batalhão de fotógrafos. Estava em todos os canais de televisão, capas de revistas e contava com um enorme fã clube de nipônicas apaixonadas.

Mas dentro de campo, Kazu continuava dando conta do recado. Dos 8 títulos disputados pelo meu pai, ganhou 6. O time, ficava na cidade interiorana de Kawazaki (que abrigava a fábrica da famosa marca de motos, a 30 minutos de Tóquio) e no segundo ano do meu pai por lá, o time foi rebatizado de Verdy Kawazaki. Os maiores rivais do Verdy eram o Nissan (atual Yokohama Marinos) que contava com os brasileiros Everton (ex-Corinthians) e Renato “Pé Murcho” (ex SPFC) e o Shimizu S-Pulse, do técnico Emerson Leão. Mas o Verdy foi o mais vencedor.

No Japão, meu pai e a nossa família tiveram a vida facilitada na chegada, pois minha irmã Clô, que era Top Model, já desfilava no país há uma década. Melhor guia impossível. Foi lá que todos tivemos o prazer de pela primeira vez vê-la desfilando internacionalmente. Mas assim como eu tinha orgulho, ela judiava do irmãozinho de 18 anos convidando suas amigas, Top Models brasileiras com saudades do país, para provar o feijão da Dona Lélia. Eu me apaixonava diariamente por cada uma delas.

Lá as casas não eram muito grandes e morávamos em um bom apartamento, perto do clube. Certa madrugada, acordei com um chacoalho gostoso, devagarzinho, como se eu estivesse dormindo em um carro. Escuto minhas irmãs gritando no quarto ao lado “Terremoto, Terremoto!”. Sentei na cama e ele parou. Em uma fração de segundos pensei “nossa, até que foi rápido”, mas de repente ouço um barulho enorme, aterrorizante, que vinha debaixo e aí chacoalhou pra valer, de lado, de cima pra baixo, derrubando televisão, móveis, e etc. Nesse momento apenas coloquei as mãos na cabeça, esperando a morte. Foram os 10 segundos mais longos da minha vida. Eu, minha mãe e minhas irmãs Clô e Gisa nos abraçamos rezando (meu pai estava concentrado em um hotel e Pepinho, no Brasil). O abalo teve mais de 8 pontos na escala Richter, mas em um país preparado para isso teve 3 mortos, um punhado de feridos e uma rachadura na nossa rua. Após um episódio desses, além de repensarmos a vida, ficamos meio paranóicos e qualquer balanço de árvore no dia seguinte para mim era terremoto.

Mas vamos falar de coisa boa. O clube que meu pai trabalhava possuía, ao lado do centro de treinamento, um enorme parque de diversões. Era uma espécie de Hopi Hari (bem mais seguro) onde eu e meus irmãos nos esbaldávamos. Tinham várias montanhas-russas, entre elas uma que diziam ser das maiores do país. Nessa eu não tinha coragem de ir.

Voltando a falar de futebol, teve um amistoso entre Seleção do Japão x Seleção dos Sul-Americanos que atuavam no país, na qual meu pai foi convidado para ser o técnico. O jogo foi em Shizuoka, terra natal de Kazu, em um belo estádio com o famoso Monte Fuji de fundo. Meu pai convocou um timaço. Não lembro a escalação, mas sei que tinha o uruguaio Hugo De Leon na zaga e os dois meias eram ninguém menos do que Pita (nosso menino da Vila) e um tal de Zico. O galinho havia acabado de chegar ao futebol japonês e estava atuando no Sumitomo, clube da segunda divisão, que depois passou a se chamar Kashima Antlers. O jogo foi 2 a 2 com direito a golaços de Kazu e Zico. No meu dicionário futebolístico, Zico era quase o mesmo que Deus. Era e sou superfã dele.

Assistindo a este jogo no camarote com minha família, escuto o inconfundível sotaque carioca logo ao lado. Era a família de Zico assistindo o jogo: Sandra (esposa) e os filhos Junior, Bruno e Tiago. Carente de amigos da minha idade e ainda que falassem português, me apresentei para a garotada. O mais velho Junior (da minha idade), disse: “o quê? Você é filho do Pêpe?” (o carioca fala Pêpe, não sei porque). Eu disse “sim” e ele rebateu “obrigado pelo que o seu pai fez pelo meu time!”. Eu, com espanto: “você é santista???”. Ele “não, sou bugrino, e subimos para série A com seu pai!”. Como pode, o filho do Zico, torcia para o Guarani de Campinas! E não era brincadeira não, ele sabia tudo do bugre. Figuraça esse Junior. Logo fiz amizade com a molecada e costumávamos sair juntos atrás de videogames. Certo dia, eles me convidaram para ir na casa deles para jogar, lá em Kashima (1 hora de trem). Tremi na base, afinal iria conhecer o Zico. Cheguei no endereço e na porta de uma grande casa (rara no país) tinha os dizeres “Família Coimbra”. Quem abriu a porta de shorts e sem camisa? Ele mesmo, Zico e ainda soltou: “E aí Rafa, o seu Pêpe tá bem?”. Tive o prazer de conhecer o ídolo e ficar ainda mais fã da pessoa. Zico era um cara simples, humilde e extraordinário (parecido com um senhor que eu tenho em casa).

Dos filhos, eu me dava melhor com o Bruno (que mais tarde virou cantor do grupo de pagode “Só no sapatinho”), Tiago ainda era muito pequeno. E no videogame o “pau comia” literalmente, a ponto do galinho subir as escadas e dar uma coça na molecada, bem bravo “vocês não respeitam nem a visita???”.

Eu amava conversar com o Zico e ouvi-lo contando detalhes das Copas de 1982 e 1986, como se fossem joguinhos qualquer. Cutuquei ele também em relação ao nosso peixe: “Pô galinho, na final de 1983, você poderia pelo menos deixar eu arrumar a bandeira do SFC. Gol com menos de 1 minuto é sacanagem!”. Ele dava risada e adorava falar do seu mengo que ganhou o mundo e perguntava sempre do peixe da era Pelé.

Certa vez, entediado com o dia a dia nipônico, Zico me perguntou se eu sabia de algum programa legal para ele fazer com a família. Pensei, “não posso colocar o galinho numa roubada, afinal ele era famosíssimo e não poderia ser um local muito frequentado, pois ele não teria sossego”. Pensei no Yomiuri Land, o parque do clube do meu pai. Segunda-feira era ótimo, ficava às moscas! Combinamos e lá estava eu esperando eles na porta do parque. De repente, chega um carrão preto com motorista, veio a família toda. O japonês que vendia ingresso arregalou os olhos: “Diiiiiiico!!!!!” (eles chamavam Zico de Dico). Foi um dia maravilhoso, aproveitamos todos os brinquedos e nos divertimos muito. Mas faltava um brinquedo: a fatídica montanha-russa que eu morria de medo. Zico diz: “quem vai comigo?”. Eram 2 minutos de subida que antecipava a primeira descida, com direito visão de outras cidades lá de cima. “Vâmo Rafa?”, disse Zico. Eu, cagão, “desculpe, mas eu tô fora”. Zico:” eu não vou sozinho e me arrastou para o primeiro carrinho”. Pensei, sobrevivi a um terremoto, não é uma montanha-russa que vai me matar. Zico com os dois braços para o alto e eu me cagando ao lado. Após a primeira descida não lembro de mais nada, apenas do Galinho rindo da minha cara e eu xingando ele. Meu ídolo virou meu amigo!

Depois de todas essas emoções vividas no Japão, após 2 anos de contrato, fomos embora com o coração apertado.

Puxa… fui longe demais nessa história hein? Longe como o Japão.

Mas nada disso teria acontecido, se lá atrás meu pai não acreditasse no potencial do japonês. Arigatô, Pepe San.

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5 comentários em “1, 2, 3 coloca o japonês

  1. Caraca Rafa, não lia nada seu desde o tempo do Orkut kkkk.
    Belo texto, parabéns aí.
    Manda um abs para a Gisa o livro sobre seu Pai ficou show.
    Valeu muleke

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