Salve Chulapa

Acompanhar o final da carreira de Serginho Chulapa de perto foi um privilégio para mim, então um garoto de 16 anos. Em 1989 e 1990 meu pai era o técnico do SFC e Serginho, um pouco acima do peso, era reserva. Mas não reclamava disso. Pessoa sensacional, um querido, sempre com seu bom humor peculiar, só ajudava e fazia bem ao elenco.

Eu vivia acompanhando os treinos na Vila, algumas vezes cheguei até a concentrar e fui testemunha ocular de inúmeros “causos” do Chulapa.

Entre meu pai e ele só havia amizade, respeito e admiração de ambas as partes. Os dois, engraçados e boleiros, se entendiam muito bem e meu pai muitas vezes escutava o Serginho até sobre detalhes da equipe, parte tática e formação.

Embora maior artilheiro da história do SPFC, Serginho nunca escondeu que é santista e sempre viveu o clube muito intensamente, virando um grande ídolo da torcida. É lembrado até hoje por sua paixão pelo peixe demonstrada dentro de campo, pelo gol do título paulista de 1984 contra o Corinthians no Morumbi (o último antes da nossa longa seca de títulos), mas também pelo seu “pavio curto” e pelas brigas e confusões que se metia no futebol.

Como estava já encerrando suas atividades como jogador, meu pai que passou pela mesma situação antes, pegava leve com o Chulapa. Treinar e concentrar aquela altura estavam longe de ser prioridades para ele.

Certa vez, estava eu com o meu pai, na sala da comissão técnica na Vila, quando Serginho bate na porta: “oi seu Pepe”.

Pepe: “Fala Serginho”

Chulapa: “hoje não vou treinar não, tá?”

Pepe: “O que houve, Bernardino? (é assim que meu pai chama ele até hoje, pelo sobrenome)”.

Chulapa: “hoje eu não tô muito legal não e tenho uns negócios pra resolver…”

Pepe: “Vai lá Bernardino, só chama o doutor aqui.”

Após alguns minutos, entra o médico na sala e meu pai pede:
Pepe: “Fala na imprensa que o Serginho sentiu um desconforto e foi poupado”.

O dia seguinte saía no Jornal A Tribuna: “O técnico Pepe comandou um treino tático, mas Serginho não treinou, pois sentiu um desgaste muscular…”.

Quando o jogo era em cidades “próximas” de Santos, como Araraquara, Marília, Bauru, ele também era “poupado”.

Mas quando ia para o jogo, mesmo não estando mais 100% fisicamente, Serginho se entregava. Meu pai deixava ele no banco e se a coisa não andasse boa, a torcida começava a pedir Chulapa, afinal com ele em campo no mínimo o jogo ficava mais animado. E quando ele era chamado para aquecer, a torcida vibrava como gol. Mesmo sem a mesma mobilidade habitual, Serginho ainda era melhor que muitos atacantes. Lembro nessa época de um jogo contra o Fluminense no Rio de Janeiro, que ele fez dois golaços.

Serginho defendia seus companheiros com unhas e dentes (literalmente). Passava nervoso no banco vendo algum jogador do Santos “apanhando” mais que o normal. Foi assim em um jogo contra o Inter-RS na Vila. Havia um zagueiro do Inter, cabeludo, chamado Norton. E naquele dia ele estava “baixando o porrete”: batia no Paulinho Mac Laren, no Almir, no Sergio Manoel e Serginho gritava para ele, fazendo um gesto com a mão aberta do banco:

Chulapa: “ô cabeludo, espera que eu vou entrar!!!!!”

Depois falava pro meu pai durante o jogo:
Chulapa: “seu Pepe, me coloca que eu vou “pegar” esse cara”.

Pepe: “Espera aí Serginho!”

5 minutos depois:
Chulapa: “me coloca seu Pepe, me coloca!”

Pepe: “Peraí, Serginho você já vai entrar daqui há pouco”.

Passa mais um tempinho e meu pai escuta a torcida vibrando. Sem aquecer nem consultar meu pai, Serginho já está pronto pra entrar, do lado do mesário e só pergunta: “Quem sai seu Pepe?”.

Jogo difícil, Inter pressionando e todo estádio de olho no gol de fundo na Vila. Quando de repente o bandeirinha faz um sinal para o árbitro. Havia um jogador caído no meio campo se contorcendo. Claro, era o cabeludo Norton. O que aconteceu? Quem foi? Naquele tempo, sem TV, pay-per-view, 20 câmeras e nem repórter que acusa o que aconteceu para o 4o árbitro, ninguém viu nada. A única coisa que eu vi, foi o zagueiro sendo retirado de maca e o Inter não podia mais mexer pois já tinha feito as 3 substituições. Com 1 a mais em campo, ainda deu tempo pro peixe garantir a vitória com festa do Chulapa e seus meninos.

Outro episódio inesquecível para mim, foi um Corinthians x Santos no Pacaembú. Concentramos na Chácara Nicolau Moran (antigo imóvel de propriedade do Santos, situado na Interligação entre a Anchieta e Imigrantes). Ali era concentração mesmo! Impossível dar uma “escapadinha”. Em total harmonia com a natureza, a paz reinava e o silêncio também. Alguns brincavam que o lugar era mal assombrado e à noite realmente dava medo, devido à neblina. Naquela época a Chácara, que havia sido muito utilizada no passado, já dava sinais de abandono e muitos jogadores não gostavam de ficar lá tão isolados. Mas não era toda hora que concentrava lá, era mais para os clássicos.

Jogador frustrado, eu adorava aquele ambiente pré-jogo. Os jogadores se dividiam entre sinuca, baralho e a grande TV da sala. Lembro de ver o Cesar Sampaio sempre lendo a bíblia. E o Chulapa “causando” principalmente em cima dos mais jovens. Ele gostava de “pegar no pé” do zagueiro Camilo, um negão alto que veio da base. Então era comum, mesmo do outro lado da casa escutar um “Camilooooooooo” ecoando pela chácara. O riso era geral.

No domingo, após o almoço (que era cedo), meu pai fez a preleção na grande sala da chácara. Naquela época estávamos há um bom tempo sem ganhar do Corinthians, que vinha com o camisa 10 Neto inspiradíssimo na bola parada. Diria que meu pai armou uma “retranca” para o jogo no Pacaembú.

Fomos no ônibus Baleia em direção ao estádio, samba rolando e descontração também. Meu pai estava sério e preocupado com o jogo. Perto do estádio, paramos no semáforo e colado ao nosso lado um ônibus coletivo quase virando de tanto corintiano. Todos de preto, quando notaram que era o ônibus do peixe, começaram obviamente a xingar muito, aquela gritaria. E nada do semáforo abrir, jogadores fechando a cortina, gritaria e impropérios para todos os lados. De repente, Serginho toma uma atitude: “Peraí, peraí!”
Ele abre a janela dele e coloca meio corpo e mais os braços pra fora da janela e dá um só berro: “ O QUÊ QUE FOOOOOOOI!”

Se eu tivesse uma máquina fotográfica teria registrado aquele momento: Chulapa deixou um ônibus inteiro de corintianos calados, assustados e boquiabertos. Depois começou-se a ouvir baixinho do coletivo um “Serginho viado”, mas fomos embora. Foi épico!
A retranca do meu pai deu certo. Com o Pacaembú lotado de corintianos, ficou no 0 a 0 e o melhor em campo foi Ivanilton Sergio Guedes, nosso goleiro Sergio. Aquela foi uma das maiores atuações de sua carreira e operou pelo menos 5 milagres.

Como “prêmio” por ser o melhor em campo, Sergio foi sorteado no antidoping, coisa que todo jogador odeia.

E convenhamos, após um jogo difícil, emoção, adrenalina a mil, fazer um simples xixi com mililitros contados pode não ser tarefa fácil. E aquele dia não foi. Sergio estava com dificuldade de urinar. E toma água, isotônico, suco e nada. Por um erro da diretoria, ninguém ficou com um carro para levar o Sergião embora. Resultado: ônibus parado à noite na garagem do Pacaembú, com jogadores cansados e com fome.

Não tinha mais ninguém no estádio, torcida, imprensa, nada. Só nós. Quando a grande notícia chegou “Sergio havia urinado!”. Alarme falso. Na verdade ele tinha feito xixi, mas não nos níveis necessários, faltava mais um pouco. A essa altura, incentivados por Chulapa, aconteceu uma pequena invasão na área de controle anti-dopagem. Sergião já estava levemente embriagado, pois cerveja já havia entrado em seu cardápio pró-xixi. O que lembro no fim, foi dos jogadores comemorando cada gota de xixi e vibrando como se fosse um gol quando ele completou o limite do vidrinho.

No ônibus tinha uma pequena TV, que já estava mostrando os gols do Fantástico e Sergião chegou a tempo de ver suas magníficas defesas. Com o goleiro já “bem alegre”, Chulapa comanda o samba e a cerveja estava liberada até a Baixada.

Seja sócio do Santos F.C. sociorei.com.br 

Compre somente produtos oficiais do Santos F.C. santosstore.com.br 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s