​23 de outubro, dia do extraterrestre

Pelé por Pepe.

Anteontem, cheguei à casa dos meus pais Pepe e Lélia para saborear a tradicional pizza de sábado à noite. Também venho especialmente para visitar meu pai, afinal sofreu um acidente doméstico (caiu de uma escada) e teve a clavícula direita fraturada. Como ele diz com humor: “Estou no DM”.

Já recuperado do susto mas ainda de tipóia, me pede o cardápio pra escolher a pizza. Aliás, não sei porque ele me pede o cardápio pois desde que me dou por gente ele pede de atum. Coisa de quem gosta de Peixe.

Pepe: “filho, hoje pode ser de atum”.

Eu: “pra variar, né?”

Se tem uma coisa que eu gosto é de testar a memória dele e fazer “mini-enquetes” de supetão, tipo “responda na lata”. Entre um pedaço de pizza e outro pergunto: “Pai, dentro da área: Coutinho ou Romário?”

Ele pensa um pouco e eu, com certeza que ele iria escolher o amigo de ataque, fico surpreso: “Pelé”.

Eu: não pai, eu falei só dentro da área.

Ele insiste: Pelé. Os dois citados eram fantásticos, mas nunca vi ninguém dentro da área como Pelé.

Eu: o Rei vai fazer aniversário segunda né?

Pepe: isso, ele é de 40, vai fazer 77.

Eu (cansado de saber, mas sempre querendo mais detalhes): pai, quando ele chegou, como foi? Ele foi evoluindo a cada treino, afinal tinha só 16 né?

Pepe: não filho, ele veio pronto. Como se tivesse sido enviado de outro planeta.

Eu: kkkkk

Pepe: no primeiro treino, em 1956 já bagunçou. E filho, nosso time já era bom, éramos bicampeões paulistas, muitos jogadores experientes…No vestiário após o treino ficou meio que um silêncio, um olhando para cara do outro pensando “o que que é isso?”. O Urubatão, que marcou ele, falou pra mim nesse dia: Pepe, nunca vi nada igual, impossível marcar esse menino. Hélvio falou o mesmo.

Eu: e no dia seguinte?

Pepe: só se falava nele, o que será ele iria aprontar hoje. Já éramos jogadores e admiradores daquele talento absurdo. No primeiro dia todos já sabíamos que ele seria jogador de seleção.

Que ele seria melhor de todos os tempos a confirmação veio depois. Em 1958 ele ganhou a Copa com 17 anos fazendo gol antológico na final e foi artilheiro do Paulista com 58 gols!!

Eu (provocando o velho): Mas como o senhor nunca conseguiu ser artilheiro do Campeonato Paulista?

Pepe: Como filho? Fui duzentas vezes vice-artilheiro: Um ano ele fazia 58 e eu 39. No outro ele fazia 45, eu 28, por aí vai. Nunca existirá nada parecido com ele. Sabe esses lances incríveis dele que você vê da Copa de 70 e fica babando? Ele fazia um desse novo por treino todo dia. O repertório dele era inesgotável.”

Não tem como não se empolgar. Meu pai jogou 15 anos ao lado dele, foi padrinho de seu primeiro casamento e depois chegou a ser técnico dele no Santos. Pouca gente conhece o Rei como o meu pai. E as histórias continuam:

Pepe: “Ele já chegou ambidestro, chutando bem de todos os jeitos, com as duas. Era nosso melhor cobrador de escanteio, mas quase não cobrava porque era o nosso melhor cabeceador. Nosso melhor cobrador de pênalti, falta de perto. Algumas vezes vi ele “brincando” em outras posições: zagueiro (fantástico), volante (perfeito) e o mais incrível: o Rei foi um dos melhores goleiros que já vi! Em festas de fim de ano ou então rachões em que ele falava que ia pro gol, os jogadores disputavam a tapa para tê-lo como goleiro. Ele possuía a técnica perfeita para ser um dos melhores goleiros do mundo. Tudo isso sem falar que era o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos e nos anos 50 já fazia 100m em 10 segundos. Tá bom pra você, filho?”

E toma enquete.

Eu: “Pagão ou Coutinho?”

Pepe: “ah filho, essa é complicada: empate. Quando jogava o trio PPP (Pagão, Pelé e Pepe) eu gostava porque eu recebia mais bola. O Pagão era um monstro, genial e rolava cada bola pra mim…era só correr para o abraço. Depois chegou o Coutinho, que também era extraordinário, mas jogava mais com o Pelé. Daí nasceram as famosas tabelinhas e umas das maiores duplas da história do futebol. Um procurava o outro, se entendiam como ninguém, ele foi a cara-metade do Rei. Confesso que às vezes eu ficava puto que não vinha bola pra mim, mas curiosamente nessa época é quando eu fiz mais gols. Justamente, porque a bola não vinha eu fiquei mais “fominha” e geralmente quando vinha finalizava até sem ângulo.

Meu pai (José Macia, (meu avô)), que às vezes não conseguia ir à Vila pois ficava no seu bar em São Vicente, dizia orgulhoso “na narração do rádio quando o locutor dizia Pepe, todo mundo já levanta pois sabia que vinha finalização.” E era verdade. A dupla da tabelinha não reclamava não, pois fizeram muitos gols de rebotes de goleiros em chutes meus ou então quase perderam a cabeça em outros chutes que viraram cruzamentos.

Às vezes o Zito me ajudava (era o único que mandava até no Rei) e quando o jogo estava muito marcado pelo meio na tabelinha, ele dizia pra eles “Dá carne pro leão!”, aí eles lembravam de mim (risos).

Tinha orgulho de ter pelo menos uma coisa mais forte do que o Rei: o chute. Não só chutava muito forte, como também tinha muita pontaria. Dificilmente eu errava o gol. E os negões sofriam muitas faltas e eu adorava quando o Lula gritava “vai lá bomba!”. Ele me chamava de bomba. E eu ia lá bater falta. Nesse quesito eu era o Pelé. Ou, sem modéstia, o Pepe né?

Do Rei, fui ex-companheiro de time, amigo e admirador. Sempre achei que ele era um fora-de-série e entendia nas excursões, quando todos os jogadores ganhavam X em dinheiro, ele ganhava Y. Era justo. Nosso time era extraordinário, mas ele era, sem dúvida, a estrela maior da corporação. Nunca vai existir outro igual”.

Dona Lélia chega com um sorvetinho de sobremesa. Pergunto: “quantas bolas o senhor quer pai?

Pepe: “10, em homenagem ao Rei.”

Eu: kkkkk

Dona Lélia: “nada disso, só duas. Olha a barriga!!!”

Foto de capa: Paulo Pinto/ Fotos Públicas

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